FLUXUS

Um ateliê de design ecológico para curar nossa relação com a Água

 

Apesar de correta, a idéia de que o jeito mais rápido de conectar dois pontos é uma linha reta embasa muitos equívocos da engenharia contemporânea. Talvez o maior deles tenha sido linearizar os caminhos da água – tanto nos sistemas que abastecem as construções onde as pessoas moram e trabalham, quanto na retificação e canalização dos rios urbanos. A consequência de lidar com a água como um recurso que percorre uma linha reta desde sua “origem” até o seu “descarte” pôde ser experimentada pelos paulistanos em 2015, no pico da crise hídrica do Sudeste brasileiro. Naquele momento, as represas que abasteciam São Paulo estavam secando ao mesmo tempo em que as chuvas torrenciais de verão faziam transbordar os rios canalizados, provocando enchentes pela cidade. Foi quando muitas pessoas tiveram que lidar com a situação paradoxal de não terem água saindo pelas torneiras mas verem suas ruas alagadas. Ficou claro, ali, que o problema não estava na falta de água, mas na lógica sistêmica de como ela percorre as cidades. E foi com a missão de redesenhar essa lógica que surgiu a Fluxus.

 

O nome foi inspirado por um movimento homônimo dos anos 60 que uniu artistas de maneira descentralizada e autônoma com o objetivo comum de promover a arte como uma expressão naturalmente humana. A idéia desse movimento era criar uma plataforma de empoderamento artístico acessível para qualquer pessoa. A inspiração veio não apenas dessas premissas, mas do próprio nome do movimento, que em latim significa fluxo, um conceito central para rever nossa relação com a Água. Assim surgiu a Fluxus, um atelier de design ecológico que combina as competências da engenharia com o olhar da permacultura para harmonizar a relação das pessoas com a Água através de projetos técnicos e jornadas de aprendizagem. Essa combinação de ferramentas é importante para chegar ao objetivo desejado pois, enquanto a engenharia é uma ciência exata especializada em desenhar sistemas e estruturas eficientes, a permacultura é a ciência do design ecológico, que busca lições na natureza para atender necessidades de forma eficaz.

 

Diferente da engenharia clássica, que define o saneamento básico como uma soma dos serviços de abastecimento, tratamento de esgoto, manejo de água da chuva e gestão de resíduos sólidos, a Fluxus entende a Água como um só elemento. Na lógica clássica, a água potável é trazida de longe, a chuva é drenada e removida o mais rápido possível da superfície da cidade e o esgoto é conduzido até uma caixa de concreto para ser “tratado” – na realidade, na maioria absoluta dos casos, é despejado sem tratamento algum nos rios. A Fluxus trabalha com outros princípios, pois sua maior inspiração reside na lógica de operação da própria natureza. Nos ecossistemas naturais, cada um dos processos que acontecem alimenta o outro com um impacto positivo e não existem desperdícios. É como são desenvolvidos seus projetos. A água da chuva, por exemplo, é captada, aproveitada, e seu excedente tratado e infiltrado em sistemas paisagísticos multifuncionais – não teria por que drenar esse recurso. Já nos projetos que oferecem soluções de abastecimento, a Fluxus sempre busca pelas “águas locais” disponíveis, compatibilizando a qualidade destas com a qualidade necessária para os usos locais, reduzindo a dependência de águas trazidas de longe, via abastecimento público. O esgoto, por sua vez é encarado como um fluxo contínuo de água em qualidades diversas, com presença de nutrientes e energia incorporada que podem e deve ser recuperados para criar novos ciclos virtuosos.

 

A partir desses princípios da permacultura, a Fluxus usa a engenharia como ferramenta para desenhar as soluções a partir das demandas que recebe de seus clientes. Ao longo de uma década de existência, a empresa já prestou serviços para edifícios comerciais e residenciais, condomínios, indústrias, estádios, fazendas, famílias em vulnerabilidade social e comunidades tradicionais, além de oferecer cursos práticos e vivenciais como o Água: Equilíbrio Dinâmico entre Polaridades, pelo artista plástico holandês Paul van Dijk, e Esgoto como Fonte de Recursos, pelo engenheiro permacultor Guilherme Castagna. Cada projeto da Fluxus é único e começa por um diagnóstico do sistema, que inclui uma leitura dos caminhos que a água está percorrendo e quais funções poderia cumprir ao longo desse sistema. A partir daí, é tecido um plano de ação que aumente a inteligência de como a água é utilizada no espaço. Os impactos do projeto vão desde a economia na conta até a reconexão com a água através de sistemas abertos por onde é possível vê-la fluir e reintegrar-se ao ambiente construído.

 

A abordagem da Fluxus em relação à Água tem também uma dimensão de cura com essa que é uma fonte imprescindível para a vida humana. Honrar essa fonte tanto a partir dos projetos e cursos quanto na grafia da Água com letra maiúscula é parte do propósito mais profundo da Fluxus. Nas soluções que desenvolve, a empresa sempre enxerga o movimento da Água como princípio organizador de um projeto, adequando-se ao movimento que Ela apresenta. Nessa abordagem é possível olhar para a Água não como um recurso, mas como um organismo que se expressa através de curvas, meandros e movimentos cíclicos entre rios e nuvens. Assim, a Fluxus oferece uma lembrança de que a água aquecida e despejada pelo chuveiro em nosso banho diário é a mesma em que nos banhamos numa cachoeira. E é esse tipo de consciência que possibilita o contorno de situações como a descrita na crise hídrica de São Paulo lá no primeiro parágrafo – honrando a Água, respeitando seus caminhos e sua expressão e readaptando nossos sistemas urbanos a Ela. É nessa direção que a Fluxus trabalha.